Um bom pão é uma forma de oração

Não consigo acordar tarde e tenho aproveitado o início da manhã para assar pães. Um bom pão é uma forma de oração. Dez minutos de sova e depois esperar o milagre do crescimento. Enquanto isso, pratica-se a paciência. É possível resolver isso rapidamente indo à padaria da esquina. Mas o que fazer com o tempo que sobra? Estamos reaprendendo a lidar com o tempo e eu prefiro meditar enquanto faço o pão.

Uso a técnica da minha mãe. Uma pequena bolinha de massa em um copo d’água. Quando ela flutua, é sinal de que o pão cresceu e está pronto para ser modelado. Eu podia olhar no relógio. Eu podia ligar o cronômetro do forno. Mas faz parte da oração lembrar da minha mãe. Que não tinha cronômetro, tinha seis filhos para cuidar e, provavelmente, dependia desse truque visual para não se perder em meio a tanto trabalho que tinha na casa. Enquanto sovava os pães hoje cedo, lembrei da varanda do fundo da casa onde eu, às vezes, ajudava a passar os pães no cilindro. Ficava intrigado de como ela sabia quando o pão já estava cilindrado o suficiente. Nunca perguntei. Agora não tenho mais como saber.

Tentei hoje cedo fazer pães parecidos com os da Vó Armelinda, avó da minha esposa. Claro que não vão ficar iguais. Modelar um pão corretamente é uma arte que leva muito tempo para se aperfeiçoar. Eu preciso de uma balança de cozinha para dividir a massa em porções iguais. A Vó Armelinda fazia “de olho” e assava fornadas de três ou quatro assadeiras de pães simetricamente modelados. Qualquer dia eu volto aqui para contar a história de quando achei que já estava meio caduca e tinha errado na receita do pão. Quem errou e levou bronca, nesse dia, fui eu. Vó Armelinda partiu faz uma semana e fez parte da minha oração de hoje.

Enquanto aguardo os pães crescerem, lembrei de um texto que escrevi em janeiro de 2012, época em que comecei a me aventurar a fazer pães de fermentação longa (afinal, orações podem ser curtas ou longas e precisamos de todas nesse momento).

Um pão assado na madrugada enche a casa de paz. Como uma oração.

***

O texto abaixo foi publicado originalmente em 29 de janeiro de 2012 no umlitrodeletras.com.br.

Tirei os pães do forno e deixei descansando na grade. Peguei um livro, sentei no sofá – de repente, escuto um ruído na cozinha – são os pães cantando baixinho, como se fizessem uma oração.

Depois que você, a duras penas, aprende a domar a farinha, a água, a umidade (inconstância, teu nome é umidade!) e o fermento, descobre que ainda há outra arte por vir. Modelar pães não é uma tarefa banal.
Meus pães não estão bem modelados. Têm vergonha de mostrar seu traseiro, costurado e remendado pelas minhas mãos inábeis. Mas mesmo assim acordam corados, saudáveis, felizes e cantando baixinho para não atrapalhar o silêncio do domingo. Depois pedem um pouco de manteiga, uma xícara de café. E eu largo o livro e vou conversar com eles.

(Tente fazer a mesma experiência com pão de forma comprado no supermercado. Periga ele sair do saco plástico recitando preço de ações e a cotação do trigo na bolsa de commodities de Chicago. E ainda por cima tem nojinho da manteiga e diz que só se dá bem com peito de peru light. Não conversa, não canta, não sabe nem que é domingo. Um pagão.)

 

umlitrodeazeite

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